segunda-feira, 3 de outubro de 2016

livros dos maluquinhos de Ziraldo.

O Menino Maluquinho

Era uma vez um menino maluquinho
Ele tinha o olho maior que a barriga
tinha fogo no rabo
tinha vento nos pés
umas pernas enormes
(que davam para abraçar o mundo)

e macaquinhos no sótão
(embora nem soubesse o que
significava macaquinhos no sótão).
Ele era um menino impossível!

A melhor coisa do mundo
na casa do menino maluquinho
era quando ele voltava da escola

A pasta e os livros
chegavam sempre primeiro

voando na frente
Um dia no fim de ano
o menino maluquinho
chegou em casa com uma bomba:
"Mamãe, tou aí com uma bomba!"

"Meu neto é um subversivo!"
gritou o avô.
"Ele vai matar o gato!"
gritou a avó.

"Tira esse negócio daí!"
falou - de novo - a babá.
Mas aí o menino explicou:
"A bomba já explodiu, gente.

Lá no colégio."

"Esse menino é maluquinho!"
falou o pai, aliviado."
E foi conferir o boletim

Esse susto não era nada
tinha outros que ele pregava.

Às vezes
sem qualquer ordem
do papai e da mamãe
se trancava lá no quarto
e estudava e estudava
e voltava do colégio
com as provas terminadas
tinha dez no boletim
que não acabava mais
E ele dizia aos pais
cheio de

contentamento:
"Só tem um zerinho aí.

Num tal de
comportamento!"
A pipa que
o menino maluquinho soltava

era a mais maluca de todas
rabeava lá no céu

rodopiava adoidado
caía de ponta cabeça
dava tranco e cabeçada
e sua linha cortava
mais que o afiado cerol.

E a pipa quem fazia
era mesmo o menininho
pois ele havia aprendido

a amarrar linha e taquara
a colar papel de seda
e fazer com polvilho
o grude para colar
a pipa triangular
como o papai
lhe ensinara
do jeito que havia
aprendido
com o pai
e o pai do pai
do papai.
Era preciso ver
o menino maluquinho

na casa da vovó!

Ele deitava
e rolava
pintava e bordava
e se empanturrava
de bolo e cocada
E ria
com a boca cheia
e dormia
cansado
no colo da vovó
suspirando de
alegria
E a vovó dizia:
"Esse meu neto
é tão maluquinho"
O menino maluquinho
tinha

dez namoradas!

Ele era
um namorado

formidável
que desenhava

corações
nos troncos
das árvores
e fazia versinhos

e fazia canções.
E se escalavrava
nos paralelepípedos
e rasgava os fundilhos
no arame da cerca

e tinha tanto esparadrapo
nas canelas

e nos cotovelos
e tanta bandagem
na volta das férias
que todo ano ganhava

dos colegas
no colégio
o apelido de Múmia
E chorava escondido
se tinha tristezas
O menino maluquinho
tinha lá os seus segredos
e nunca ninguém sabia
os segredos que ele tinha
(pois segredo é justo assim).

Tinha uns mais segredáveis
E outros
que eram
menos.
O menino maluquinho
jogava futebol.

E toda a turma
ficava esperando

ele chegar
pra começar o jogo.

É que o time
era cheio de craques

e ninguém queria
ficar no gol.

Só o menino maluquinho
que dizia sempre:
"Deixa comigo!"
E ia rindo pro gol
para o jogo começar.

E o menino maluquinho
voava na bola
e caía de lado
e caía de frente

e caía de pernas pro ar
e caía de bunda no chão
E a torcida ria
e gostava de ver
a alegria daquele goleiro.
E todos diziam:
"Que goleiro maluquinho!"

E aí, o tempo passou.
E, como todo mundo,
o menino maluquinho cresceu.
Cresceu
e virou um cara legal!

Aliás,
virou o cara mais legal

do mundo!
Mas, um cara legal, mesmo!

E foi aí que
todo mundo descobriu

que ele
não tinha sido

um
menino
maluquinho

ele tinha sido era um menino feliz! Este livro foi digitalizado sem fins comerciais para uso exclusivo de pessoas com deficiência que necessitem de leitores de tela para aceder ao seu conteúdo, não devendo ser distribuído com outra finalidade, mesmo de forma gratuita.

Ziraldo


UMA
PROFESSORA
MUITO
MALUQUINHA

EDITORA
MELHORAMENTOS




Para Dona Kate

Para

Dona Nim Campos

Dona Didi do Ramos

Sêo Roldano

Professor Armando

Só Freitas

(o Desembargador Anaudin Freitas)

e para

Vítor Moreira e Aníbal Bragança



Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ziraldo, 1932
Uma professora muito maluquinha / Ziraldo , ilustrações do autor - São Paulo Companhia Melhoramentos, 1995

ISBN 85-06-02219-3

l Literatura infanto-juvenil I Titulo

95-3298 CDD-028 5

Índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infantil 028 5

2. Literatura infanto-juvenil 028 5

Capa e ilustrações do autor
S 1995 Ziraldo Alves Pinto

Direitos de publicação

(c) 1995 Cia. Melhoramentos de São Paulo

Atendimento ao consumidor

Caixa Postal 2547 - C EP 01065-970 -São Paulo - SP - Brasil

Edição 18 17 16 15 14 H
Ano 2004030201 00

SEx-V

ISBN 85 06-02219-3
Impresso no Brasil

Era uma vez uma professora maluquinha.
Na nossa imaginação ela entrava voando pela sala...
(como um anjo)
..e tinha estrelas no lugar do olhar.

Tinha voz e jeito de sereia...
..e vento o tempo todo nos cabelos (na nossa imaginação).

Seu riso era solto como um passarinho.
Ela era uma professora inimaginável.

Para os meninos ela era uma artista de cinema.
Para as meninas, a Fada Madrinha.

A cidade onde a professorinha vivia
era assim: tinha a pracinha, a matriz e
o cemitério no alto do morro; tinha o
Padre Velho (que era tio dela) e o
Padreco (que foi um menino que o
Padre Velho criou); tinha as beatas e
as solteironas (que davam notícias da
cidade inteira). E tinha o funcionário
do Banco do Brasil (que fazia versos
de pé quebrado) e o boêmio que
cantava boleros (e que era muito
bonito); tinha o professor de
Geografia, que sabia onde estava no
tempo e no espaço; tinha o cinema e
o velho dono do cinema sentado na
porta, lendo seu jornal; tinha
o colégio das irmãs (onde ela havia
estudado para professora) e o ginásio
municipal; tinha a professora de
piano e, sem qualquer explicação para
a pobreza da cidadezinha, tinha todos
os pianos do mundo nas casas das
moças prendadas, onde, todas as
manhãs, elas tocavam o Pour Elise...
. .e tinha também seus trinta e três alunos - nos
que achavam que ela era a coisa mais maravilhosa da
cidade, isto é, do mundo.

Como todos sabem, os três mosqueteiros eram quatro.
Só que nós - a turminha que vai contar esta história
- éramos cinco: Athos, Porthos, Aramis, Dartagnan
e Ana Mana Barcellos Pereira, a chefa.


Nós tínhamos acabado de descobrir o segredo das letras e das sílabas; já sabíamos escrever nossos nomes, ler todos os letreiros das lojas, os cartazes do cinema , as manchetes dos jornais e os títulos dos anúncios nas revistas, quando ela chegou em nossas vidas.


Quando ela entrou pela primeira vez na nossa sala
falou que ia ser nossa professora naquele ano, todas as
meninas quiseram ser lindas e todos os meninos quiseram
crescer na mesma hora pra poder casar com ela.


A primeira chamada que ela fez foi assim: mandou cada
um de nós escrever o nome de um outro aluno. O nome
por inteiro. "Grande vantagem saber escrever seu
Próprio nome" - ela brincou. Depois embaralhou os
de todos nós e mandou que a gente arrumasse
tudo direitinho na exata ordem do ABC.

Gastamos quase a aula inteira só para descobrir que o nome de um colega nosso Pedro da Silva Marins tinha que ficar na frente do nome de outro colega que- imaginem só!- chamava-se Pedro da Silva Martins.Em compensação ficamos craques em dicionários e catálogos .

Nas aulas seguintes ela resolveu dividir a classe em dois times. Nós adoramos! No começo era menina contra menino. Como havia dezessete meninos e dezesseis meninas, ela reforçou o time feminino. Mas, às vezes, o time dela perdia.

Outras vezes
ela fazia
times diferentes:
morenos contra
louros
(embora,
louro mesmo,
só houvesse um na sala);
magros contra
gordos
(tinha alguém
gordo?);
ou bonitos
contra feios
(aí era
por eleição).

Os embates entre os dois times começaram pela modalidade
Forca. A cada letra errada se desenhava um
pedacinho da forca ou do enforcado. As meninas
enforcaram os meninos.


A segunda partida- justo a segunda- foi o Jogo de Começo: quantas coisas começadas com C, por exemplo, tem nesta capa da revista Careta. Os meninos ganharam.

E entre outros, teve o Jogo da Rima: um minuto pro time adversário achar a rima da palavra dada. Logo no
primeiro jogo, teve um menino expulso da partida



Um dos jogos mais divertidos, porém, era Caça-palavras: descobrir onde estava uma determinada palavra num monte de anúncios, cartazes ou capas de revistas que ela trazia de casa e pregava no quadro-negro. Onde está, aqui por exemplo, a palavra igual ?

Era uma espécie de campeonato onde, em vez de corrermos atrás da bola, nós corríamos atrás das palavras.

E era tanto barulho na sala; e era tanto riso e tanta alegria que lá vinha a diretora saber o que estava acontecendo: " Vocês estão prejudicando as outras classes".

Ela conquistou tão depressa todos nós que, logo,
logo, já havia meninas chorando no seu colo.
Os meninos não entendiam nada.
Havia segredos que pertenciam somente a elas,
e eram tantos que a professora acabou inventando um
código para trocar bilhetinhos secretos com
as meninas. Houve um dia, porém, que elas tiveram
que revelar seu código. Foi quando um grande
segredo da Professora Maluquinha teve
que ser repartido por todos nós.
Mas isto aconteceu muito tempo depois.

E teve o dia da frase. Estava escrita no quadro-negro há vários dias e ninguém tinha percebido. Foi a Ana que deu pela coisa: levantou-se, de repente, do seu lugar, foi até a última carteira da fila do meio e, de lá, tirou uma maçã embrulhadinha no seu papel de seda azul.

Foi quando a turma resolveu ler, ainda com alguma dificuldade, a frase que Ana Maria apontava no quadro-negro. Fez-se uma festa quando todos conseguiram ler a frase, apesar de terem de agüentar as gozações de Ana Maria.
A frase do quadro era: "Debaixo da última carteira da fila do meio tem uma maçã embrulhadinha. Quem ler esta frase até o fim, ganha a maçã. Pode ir lá pegar".


No dia seguinte, antes da sineta tocar para o início das aulas, nós todos já estávamos amontoados em frente à porta da sala. Foi só ela se abrir que todos entraram sala adentro, como invasores bárbaros. Uns bárbaros que já sabiam ler.

"Quem, até o final da aula, tiver lido com cuidado esta frase e tiver prestado bastante atenção nela, vai escrever um bilhetinho para mim e deixar sobre minha mesa com seu nome. Neste bilete o aluno vai dizer qual foi a palavra que escrevi errada. A professora".

Esta festa foi repetida várias vezes. Havia sempre uma frase diferente e um prêmio novo para quem lesse mais depressa.
E cada dia líamos com mais rapidez, pois descobrimos que ler era uma alegria.

As velhas professoras não entendiam nada. "Os alunos dela acham melhor ficar na sala de aula do que brincar no recreio." E repetiam: "Esta menina é mesmo muito maluquinha".

Com ela não tinha castigo. Tinha julgamento. Se um lá fizesse alguma coisa que parecesse errada, ela convocava o júri. Um aluno para a acusação, outro para a defesa. O resto da turminha era o corpo de jurados...

A gente adorava aqueles julgamentos. No final do ano, quando já líamos tudo, ela achou melhor que as defesas e as acusações fossem feitas por escrito. É que o júri era muito barulhento.


Na sala da secretaria do velho grupo escolar tinha um
globo. Sem fazer qualquer pergunta, nós sabíamos que
aquele globo era a Terra e que a gente morava nele. "E
como é que a gente não cai? A gente mora dentro?" Ela
disse: "Amanhã vamos fazer uma excursão ao ginásio
para o professor de Geografia explicar para nós por que
a gente não cai do globo terrestre".

O professor de Geografia era lindo!

E tinha a Semana do Silêncio. Era quando ela vinha para a classe, abria sobre a mesa um romance água-com-açúcar e ficava lendo o tempo todo. Nós ficávamos muito, muito caladinhos.


É que a gente ficava lendo nossas revistinhas, nossos tico-ticos e gibis - já tinha menino lendo até Tarzan ou O Espírito - além de outras revistas que ela mesma trazia de casa pra nos emprestar.




Então, de repente, o Padreco batia na porta. Rápido, rápido - sob o comando da professora - a gente dava cambalhotas na carteira para esconder as revistinhas, antes que ele entrasse na sala.

Acontece que o Padreco era o professor de catecismo do grupo escolar e havia proibido a leitura de histórias em quadrinhos. Segundo o Padreco, gibi era pecado!

Ele não dava sossego pra nossa professorinha. Vivia
dizendo que ela era muito liberal, uma anarquista muito
da maluquinha. E contava tudo para o Padre Velho,
que, ao contrário dele, tinha a maior paciência com
a sua maluquinha querida.


Ninguém entendia a implicância do Padreco.
Quando menino, era ele que tomava conta da Professora Maluquinha menina: saía com ela pra passear pelo campo, fazia bonecas de pano pra ela brincar, ensinou-a a assobiar e a rodar pião.
Agora, depois de grande, ficava naquela enjoança.

Nós gostávamos era do moço do Banco do Brasil.
Ele era apaixonado pela nossa professorinha e fazia poemas de amor para ela.
E éramos nós, os mosqueteiros, que levávamos as mensagens proibidas. Tratamos até de melhorar nossos hábitos de leitura só para entender os versinhos do poeta do BB.

Eram horríveis. Nós tínhamos que sentar no banco do jardim para, em longos exercícios poéticos, melhorar a qualidade dos seus versos. No final do ano, ele já estava fazendo o maior sucesso com sua amada.

E havia muitas razões para estarmos entendendo de amor e de paixão. É que, com a proibição dos gibis, começamos a seguir uma novela muito mais emocionante do que O Direito de Nascer de noite, no rádio. A professora estava lendo para nós, cada dia, um capítulo das Desventuras de Sofia, da Condessa de Ségur, seu livro preferido da Coleção Rosa.

Um dia, ela decidiu que cada capítulo tinha que ser lido por um menino ou uma menina. Então, a qualidade da novela caiu muito. Muito mesmo. A gente ainda lia meio mal e valia vaia, assobios e até tomates e ovos, se houvesse tomates e ovos na sala.

Foi quando ela inventou a Máquina de Ler.
Era uma bobina de papel de embrulho da loja de um tio, onde foi, engenhosamente, adaptada uma manivela.
O começo do rolo de papel deixava ver escrito, em letras grandes, um verso que nós nunca esquecemos.

Então, ela foi fazendo o rolo girar e a gente viu que estava vindo ali um poema escrito de baixo para cima, um verso sobre o outro.
E ela foi girando, lentamente, a manivela e mandando a turma ler o poema em voz alta.

A cada novo dia era um poema diferente. E o rolo girando mais depressa. E ela dizia: "No dia em que vocês estiverem lendo com a velocidade de um locutor de rádio, eu posso ir embora para casa". Tadinha! Mal sabia ela que iria embora muito antes disso!

É quase certo que ninguém tenha entendido o que está fazendo aí atrás este belo desenho do Vão Gôgo. Já aconteceu antes, há muitos anos atrás: um coleguinha chegou na sala com a revista O Cruzeiro aberta no desenho e falou: "Nem meu tio inteligente entendeu. A senhora podia explicar pra gente?".

Então, ela contou para nós, como quem conta um filme, a história de um bravo guerreiro grego chamado Leônidas. A gente quase que se lembra, palavra por palavra, da história que ela contou.

"Leônidas, o rei de Esparta, era um guerreiro de valor. Quando Xerxes, herdeiro do rei persa Dario, decidiu invadir a Grécia, vindo do Egito já conquistado, Leônidas colocou seu pequeno exército num desfiladeiro chamado Termópilas e disse: "Não passarão!"
O exército persa era muitas vezes maior do que o do rei grego, mas, bem situado no desfiladeiro, Leônidas estava ganhando a batalha, quando foi traído. Os persas puderam atacar também pela retaguarda, e Leônidas foi derrotado depois de lutar até o último homem. Antes, Xerxes, que era um guerreiro meio poeta, tinha mandado um mensageiro dizer-lhe: "Tantas flechas atirarei sobre seus homens que elas cobrirão a luz do sol". Poeta por poeta, Leônidas respondeu: "Melhor, combateremos à sombra".

Leônidas foi o nosso primeiro herói!

Não é que ela soubesse tudo. Não sabia. Era craque em História e Geografia porque sonhava em viajar pelo mundo e achava que ninguém pode ir aos lugares de seus sonhos sem saber onde eles ficam e a história que têm.

Desta vez ela não organizou uma excursão ao ginásio pra gente perguntar as coisas pro professor de História. É que ele era o Padre Velho, o tio com quem ela aprendera tudo, inclusive a história do mundo. "Ele é tão velhinho que viu tudo pessoalmente!", ela dizia, brincando com o tio.

Pois falamos tanto que as histórias que ela contava pareciam um filme, que teve o dia do cinema.
Os filmes demoravam anos pra chegar de Hollywood até nossa cidadezinha.
Eis que um dia chegou Cleópatra, a Rainha do Nilo.
Com Claudette Colbert!

A professora veio contar-nos, toda feliz, que o Sêo Floriano, dono do cinema - que adorava aquela professora que ele achava meio
maluquinha -, havia decidido passar o filme, de tarde, só para os alunos dela.

Durante semanas a gente só falou do filme. Com um desenho e um filme, já estávamos conhecendo mais História Universal do que com todas as coisas escritas no livro adotado pela escola. E que ainda não tinha sido aberto por nós. Nem por ela.

Ela falou sobre romanos, sobre deuses egípcios, sobre pirâmides e serpentes. Mas falou mais da Claudette do que da Cleópatra. É que a Claudette Colbert era a sua ídola. Mais do que ela só o Cary Grant, cujas fotos, cortadas da Cena Muda, cobriam a parede do seu quarto.

E tanto se falou de História Antiga, dos tempos de antes de Cristo, de romanos e de gregos, de egípcios e de princesas que, um dia, a Ana perguntou: "Professora, onde é que a gente pode ler mais sobre
isto?" (Meu Deus, como você era metida, Ana Maria!)

Mas a pergunta da Ana valeu: o rosto da professorinha iluminou-se mais ainda. E, como um anjo que era ela saiu voando pela sala, tomou a Ana nos braços e começaram a dançar. E ela cantava uma canção inventada na hora e que dizia assim: "Era tudo o que eu queria ouvir... tudo o que eu queria ouvir!".

Seu olhar, sempre que olhava a gente, parecia veludo na pele ou um pêssego na mão. Havia dias, porém, em que ela chegava na sala com um bico maior do que o de um tucano. Então, seus olhos ficavam perdidos no ar e, muitas vezes, seu olhar, como uma flecha, atravessava , o peito de um de nós e seguia em frente, dirigido a lugar nenhum.

Quando isso acontecia, a turma - parecendo coisa combinada - ficava calada, quietinha, fingindo que estudava tabuada. Ou até estudando mesmo.
E ela, andando pela sala, suspirava pelos cantos, lendo seus livros de poesia ou escrevendo os poemas mais adequados no seu Caderno de Recordações.

Ela ficava parecendo uma tia mais nova ou uma prima mais velha, destas que a gente tem em casa e que a nossa avó fica dizendo, quando fala delas:
"Adolescência, só com muita paciência!"

Uns poucos dias depois - e sem muitas explicações a dar - ela deixava seu quartinho de tristezas e, como uma heroína de história em quadrinhos, voltava luminosa para a sala.

A sala, então, virava primavera e a turma voltava a cantar e a saudar com tal ardor o seu retorno que era preciso a intervenção da diretora, que abria a porta da sala, de repente, e gritava para dentro:
"Vamos parar com essa felicidade aí!"

Numa certa reunião de professores, ela fez um discurso.
O HOMEM NASCE
COM VISÃO,
AUDIÇÃO, OLFATO,
TATO E
GUSTAÇÃO.

MAS
NÃO NASCE
COMPLETO.

FALTA A ELE
A CAPACIDADE DE
LER E ESCREVÊR
COMO QUEM
FALA E ESCUTA.

É A PROFESSORA QUE
-COMO UM DEUS-
ACRE5CENTA AO HOMEM
ESTE SENTIDO
QUE O COMPLETA!

TENHO DITO!

Foi um escândalo!

Os filmes demoravam anos para chegar lá. Os jornais demoravam dias. As revistas, às vezes, nem chegavam. Nossa cidadezinha era muito longe do mundo. Era a voz do rádio que nos colocava no mesmo tempo do sol, com as notícias da guerra e uma forma de mundo que nós somente podíamos reconhecer pelo som.

Hoje ainda nos perguntamos; o que teria levado nossa pequena professora a descobrir caminhos, tão difíceis de imaginar, para ir ao encontro da felicidade? De onde vêm as informações para o uso da vida?

Nós a estamos revendo aqui, através das lembranças mais fortes de cada um. A propósito, um de nós jura que viu nossa professora - uma vez que os ciganos apareceram na cidade - conversando secretíssimamente com o dono da barraca de talheres e tachos de cobre, de colares, de brincos e de medalhas...

Na semana seguinte, ela fez um Concurso de Poesia na sala e um dos mosqueteiros ganhou o concurso. Teve pompa e circunstância na entrega do prêmio. Imagina só: uma medalha de ouro! Pregada no peito! E com a gravação: primeiro lugar!!! Ninguém precisava saber que a medalha era de ouro de cigano.

Então, passou a ter concurso todas as semanas. Os mais estranhos junto com os mais normais: a melhor redação, a voz mais grossa, o melhor desenhista, a melhor mão para plantar flor, o melhor cantor, o mais engraçado, o que tinha a melhor memória...

Só agora percebemos que, primeiro, ela descobria uma qualidade destacável de um de nós e aí, então, inventava o concurso, segura de quem seria o vencedor. No fim do ano, todo mundo tinha ganho uma medalha. O último, parece, ganhou o primeiro lugar em cuspe a distância.

E houve a visita das preocupadas mães dos cinco mosqueteiros:
"E os deveres para casa?" Não tinha, e ela explicou: "Seus filhos têm mais é que ler e escrever como o Rui Barbosa e fazer as quatro operações como uma maquininha registradora. Depois disso, eles vão aprender tudo num átimo".

As mães aceitaram essa idéia, mas os pais - que pagavam os livros, os lápis, os cadernos - não aceitaram de jeito nenhum:
"Queremos deveres para casa!"

Então, ela inventou deveres que deixavam as famílias todas mais maluquinhas do que ela.
"PAI! TEMOS QUE DESCOBRIR QUAL A MAIOR PALAVRA QUE O SENHOR CONHECE!"

"MÃE! JUNTA O PESSOAL TODO AQUI DE CASA PRA AJUDAR! PRECISAMOS ACHAR O MÁXIMO DE PALAVRAS TERMINADAS EM AR...QUE NÃO SEJAM VERBOS.

"PESSOAL! VAMOS TER QUE DESCOBRIR NO MAPA-MUNDI ONDE FICA UM PAÍS CHAMADO KUBALAN"

E ela continuou inventando deveres para casa neste estilo.
E tinha notas para todo mundo. Nestes três casos, por exemplo, foi assim: quem trouxe o maior número de rimas ou a palavra maior ganhou dez. Os outros todos - que fizeram o dever direitinho - ganharam nove e meio.
"Nota pelo esforço, claro", ela explicava. Quanto à Kubakalan, todo mundo ganhou dez. Kubakalan não existe. Quando perguntavam pra ela por que ela não dava zero, ela explicava, cheia de lógica: "Zero não existe".

Um dia, o Padre Velho morreu. Ele já era mesmo muito velhinho, tadinho, mas ninguém se lembrava de morte quando estava a seu lado. Morte era uma coisa que não assentava para o Padre Velho e sua calma alegria de viver. Não dava para imaginá-lo aprisionado num retratinho esmaltado sobre o mármore, com aquela frasezinha escrita embaixo: "Aqui jaz".

Pela primeira vez nós vimos nossa professorinha abraçada ao Padreco. E eles choraram tanto e pareciam tanto uma pessoa só que ninguém acreditaria que os dois tinham passado o ano inteiro feito cão e gato.

Ela agora estava se sentindo só como se fosse uma órfã.
Não havia mais o Padre Velho para estar sempre do seu lado.
O ano como tudo na vida, estava chegando ao seu final.
Para a nossa professorinha, tudo estava apenas começando.

Antes que o ano terminasse, ela procurou a diretora e falou com segurança: "Com as minhas crianças não vai ser preciso fazer provas. Todas têm condições de passar de ano". A diretora achou que, agora, ela estava maluca de vez.

LISTA DE ALGUMAS COISAS QUE NÃO APRENDEMOS NAS AULAS DA PROFESSORA MALUQUINHA

Que conjunto intersecção é aquele que tem os elementos comuns dos conjuntos dados; que o advérbio é uma palavra invariável que modifica o verbo, o adjetivo e o próprio advérbio; que a letra B é uma consoante oclusiva e bilabial; que a extremidade do canal intestinal das aves e dos répteis se chama cloaca; que os países independentes da África eram os seguintes: Abissínia, Egito e Libéria, sendo as demais colônias de países europeus, a saber, da Grã-Bretanha: União Sul-Africana, Nigéria, Sudão, Tanganica, Quênia, Uganda, Costa do Ouro, Rodésia do Sul, Serra Leoa, Somália Britânica e outros; os de Portugal eram Angola, Moçambique, Guiné Portuguesa e Cabo Verde, etc., etc., etc.; que um par ordenado é o conjunto de dois elementos no qual estabelecemos uma ordem obrigatória; que algoritmo é um processo sistemático de cálculo; que os principais afluentes do rio São Francisco pela margem direita são os rios Pará, Paraopeba, das Velhas, Verde Grande, Verde Pequeno e Paramirim; que o nome todo do Conde D'Eu, marido da princesa Isabel, era Louis Phillipe Marie Ferdinand Gaston d'Orleans; que o presidente Getúlio Dornelles Vargas estabeleceu, no dia 10 de novembro de 1937, o Estado Novo e decretou o dia 5 de setembro, oficialmente, como o Dia da Raça; que

LISTA DE ALGUMAS COISAS QUE APRENDEMOS NAS AULAS DA PROFESSORA MALUQUINHA

Que fração é pedaço, é parte de uma coisa e não um mistério da matemática; que ordinária não é uma fração canalha (ordinária tem a ver com ordem); que comum é, antes de tudo, uma coisa que é a mesma para todos; por exemplo: um amigo que é seu e meu é, para nós dois, um amigo comum, mesmo que seja um sujeito extraordinário, isto é, fora de ordem (viram?); que é preciso saber o
exato significado de palavras como elemento, sujeito, estado, composição, para a gente entender o que está estudando; que manga com leite não mata; que outrar é um verbo que não está no dicionário; que banco de três pés não manca; que três é o número da perfeição; que amar é querer bem, isto é: querer o bem do outro; que, quando se é criança, quem cumpre, promete; que a gente quer dizer: as pessoas, nós. E que agente é o Detetive X9; que o outro - quem sabe - pode estar com a razão; que não é preciso ganhar sempre; que acordar no meio da noite pra ver a lua cheia no céu pode fazer a gente chorar sem saber por quê; que não existe pé de cachimbo (o domingo pede cachimbo); que jererê não é o nome de um rio, mas um landuá de pegar peixe; que para o outro você é o outro; que estar enamorado é estar em estado de amor: in amor; que um menino rubicundo não é um menino narigudo, mas um menino coradinho; que

O Duque de Caxias nasceu no dia 25 de agosto de 1803 e faleceu no dia 7 de março de 1880. A gente não sabia.

Tamanho da bomba que os alunos da Professora Maluquinha tomaram nas provas de fim de ano.

Quando as aulas começaram, no ano seguinte, não era ela que estava sentada na cadeira, atrás da mesa, sobre o estrado, diante do quadro-negro. Era uma doce senhora de olhos severos e com a voz de quem comandava um pelotão.

Logo no primeiro dia de aula, a turma ficou toda de castigo. A professora havia apanhado um menino lendo um livro de histórias em plena aula e resolveu olhar embaixo da carteira de cada um. E encontrou o seguinte: um Almanaque do Globo Juvenil, o Jucá e
Chico, A Formiga da Perninha Gelada, o Cazuza, As Aventuras do Calunga, o volume 3 do Tesouro da Juventude, marcado no Livro dos Porquês, o João Felpudo (que no original e no mundo inteiro se chama Pedro e só na tradução portuguesa se chama João), um Almanaque do Tico-Tico (este todo arrebentado), O Saci, O Sítio do Pica-pau Amarelo e o Jeca Tatu, o Mágico, Viagens de João Peralta e Pé de Moleque, uma coleção encadernada da revista Mirim, um Almanaque do Biotônico Fontoura, o João Bolinha, Pinga-Fogo, O Detetive Errado, Histórias da Baratinha, um exemplar de O Guri, filhote do Diário da Noite, Quando o Céu se Enche de Balões, No Fundo do Mar, A Ilha do Mistério e O Irmão do Diabo (estes dois com um santinho dentro), Nas Terras do Rei Café, O Patinho Feio e o Soldadinho de Chumbo, Espertezas do Jabuti, A Casa das Três Rolinhas, O Soldadinho Doce, A Terra dos Meninos Pelados, Ruth e Alberto Resolveram ser Turistas, João Bola no Rio e Como Foi Isso?, da Editora Cristo-Rei.

Tivemos todos que ficar depois da aula e escrever cem vezes, cada um, a frase: "Prometo prestar atenção nas lições e não ficar me distraindo na hora da aula". Ela mandou o regente tomar conta da turma e foi lanchar. Quando voltou, meia hora depois, nós todos já tínhamos ido para casa. Ela ficou uma fera com o regente:
"Por que você liberou a turma?" "Porque eles fizeram todas as cópias." "Impossível! Quem fez por eles? Você?" "Eu, como? Eu nem sei ler." E quem é que ia fazer três mil e trezentas cópias de uma frase em menos de meia hora senão trinta e três meninos e meninas que sabiam ler como gente grande?

O ano seguia e todos nós morríamos de saudade da Professora Maluquinha. Até o dia em que a Ana chegou com um cartazinho na sala.

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Tratar na Rua da Aurora, n 2 • Dia todo.
Tipografia Fontoura - 5.7

Aulas de reforço, imaginem! Somente doze de nós conseguiram convencer seus pais a pagar a mensalidade das aulas de reforço. Ela teve que dar vinte e uma bolsas. E mais café com leite, biscoito e suco de frutas. E trinta e três banquinhos de palha, debaixo do abacateiro sem folhas, no quintal.


O melhor momento do curso era quando, do outro lado do muro, o dia já amanhecido de todo, a gente ouvia o assobio do boêmio voltando da noite. Era um ritual: ouvia-se a porta da casa dele se abrir, as queixas conformadas da mãe e, logo a seguir, o ruído do chuveiro e a voz do boêmio: "Dos almas que em el mundo..."

Depois, a carinha do boêmio surgia no alto do muro, com suas lindas olheiras roxas e lá ia ela ouvir suas histórias da noite. Ninguém ficava olhando. Só de vez em quando. Para ver a mão do jovem cantor de boleros acariciar os cabelos da moça linda.

Quando a mãe aparecia no quintal, toda brava ela pulava de cima do banquinho junto ao muro e vinha com as ordens: "Ensaio! Vamos ensaiar a nossa dramatização!" Dramatização era como a gente chamava o teatrinho da escola naqueles anos tão distantes.

Uma certa manhã, quando acordamos para ir à aula, sentimos que havia no ar alguma coisa diferente. As nuvens deviam estar mais baixas do que de costume, o tempo parecia ter peso, a manhã tinha ficado uma coisa pegajosa, incômoda, a cidade estava sem sons.
Quando caminhávamos para a aula, aí, sim, parecia que nossos passos tocavam as teclas de um gigantesco piano invisível e iam compondo uma canção de espera.
Quando os mosqueteiros chegaram à casa da professora, as meninas já estavam ali, paradas na rua, uma aqui, outra acolá, caladas. E foram chegando os meninos e logo já eram trinta e três crianças paradas na rua, sem querer olhar uma para a outra. De repente, a Ana se moveu e todos foram se aproximando dela: "Que foi que houve?".

A professora tinha fugido com o namorado. As beatas sussurravam. As fofoqueiras iam de porta em porta dando uma notícia que a manhã tão diferente já havia contado para todos.

Para seus meninos e meninas não era importante saber com quem a professora tinha fugido. Importante - para nós! - era decifrar a mensagem deixada no quadro-negro e que a Ana Maria copiou, antes de apagar.

Nós nos sentamos na calçada, em volta da Ana. Ela tirou o código da pasta e, agora, o código era de todos nós, meninas e meninos. E fomos, então, decifrando cada letra. Até formar a frase inteira.

O bilhete continha um detalhe a mais: o único erro que ela cometeu conosco. O de achar que nós íamos precisar crescer para entender.

Meu Deus, quantos anos se passaram! Nós todos, seus alunos, somos hoje muito, muito mais velhos do que aquela professorinha. Estamos todos, agora, com idade bastante para ser seus avós, se ela tivesse ficado, para sempre, do jeitinho que está fotografada em nossa memória, aprisionada no tempo. Aqui estamos nós de volta, quase todos. Alguns foram nos deixando pelo caminho, até mesmo na infância, pois sobreviver não era muito fácil no meio da pobreza da nossa pequena cidade. Os outros - cujos pais tinham emprego e salário - chegaram até este dia, com jeito e cara de vitoriosos, e estão aqui, digamos dentro deste livro - os Mosqueteiros do Rei à frente -, prontos para matar todas as saudades...

E acabamos de descobrir que este é o primeiro livro que conhecemos, escrito no plural. No plural da primeira pessoa. Achamos graça na descoberta e concordamos com nossa professora e com o Tom Jobim: "E impossível ser feliz sozinho".
Estamos aqui preparados para a festa de aniversário de uma bisavó muito feliz que a Ana Maria descobriu e reencontrou depois de buscá-la, sem parar, pelo mundo. Mas não estamos muito certos se queremos rever nossa Professora Maluquinha. Sua presença em nossa memória, ao longo das nossas vidas, ajudou-nos a construir nossa própria felicidade. Em nossa memória, porém, ela voa pela sala, tem estrelas no lugar do olhar, tem voz e jeito de sereia, um riso solto como um vôo de ave e o vento sopra o tempo todo em seus cabelos...
Talvez seja melhor mandar ampliar o retrato que tiramos, um dia, em frente à matriz, pendurá-lo - sem dor - na parede de nossas casas e agradecer à vida o privilégio de termos tido...
.uma professora inesquecível.

Close nela.






abraços
Kevin Roque.